IBM marca o início da história
Publicado em 27.09.2007

O Banorte foi pioneiro na informatização do sistema bancário a partir da aquisição de tecnologia da multinacional, também fornecedora da UFPE

Um dos principais pólos de desenvolvimento de tecnologia da informação e comunicação (TIC) do Brasil encontra-se em Pernambuco, uma história que começou no início da década de 60, com a instalação da empresa norte-americana IBM para atuar nas áreas de sistemas e equipamentos de informação e comunicação. Ao lado da multinacional, algumas empresas locais foram fundamentais no desenvolvimento de sistemas de tecnologia.

Em 1964, o Banco Nacional do Norte (Banorte), pertencente a um grupo de empresários pernambucanos, firmou parceria com a empresa recém-instalada no Estado e adquiriu o computador IBM 1401. Chamada de cérebro eletrônico, a máquina era considerada a mais avançada quanto à modernização e simplificação de serviços bancários, como administração de contas correntes e folhas de pagamento. “Ainda hoje o sistema financeiro é um dos grandes clientes. A computação, quando foi concebida, sempre esteve muito ligada a números”, ressalta Cláudia Cunha, atual diretora do Cesar, que trabalhou no Banorte no fim da década de 80.

Três anos depois, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) comprou o seu primeiro computador: IBM 1130. A idéia era instalar um sistema computacional para gerenciar as informações acadêmicas. Nesse contexto, já na década de 70, surgem as primeiras empresas para dar suporte e oferecer inovações às demandas de mercado até então inexistentes. Assim, foi criada a categoria profissional de técnicos especializados em manutenção e programação das máquinas. As três empresas de destaque na área foram Procenge, Pitaco e Elógica. Fundada na década de 80, a Elógica foi responsável pela criação do primeiro microcomputador genuinamente pernambucano: Corisco, 1983. Em 1986, o Banorte passou a ser a primeira empresa brasileira totalmente interligada online. “A necessidade de um banco se informatizar era grande. Isso porque cada agência funciona como filial”, afirma Gustavo Pontual, ex-presidente da Fisepe e que trabalhou no Banorte durante 21 anos, de 1979 a 1995.

A partir das necessidades do mercado por mão-de-obra especializada, a UFPE criou, em 1974, o curso de graduação e o programa de pós-graduação em Ciência da Computação. No fim da década de 80 e início dos anos 90, a maioria desses profissionais altamente especializados foi estudar fora do País. Quando voltaram, com o mercado local ainda incipiente, muitos deixaram o Estado. Fato que se agravou ainda mais entre os anos de 1993, com a quebra do Banorte, até 1996, quando foi criado o Cesar, empresa que serve de elo entre o mercado e a academia, e impulsionou o pólo de desenvolvimento de TIC em Pernambuco. O desembocar desse projeto foi a criação, em julho de 2000, do Porto Digital, no Bairro do Recife. Hoje, 103 instituições estão instaladas no local. De acordo com dados da Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco (Condepe), referentes a 2003, o setor de TIC responde por 3,5% do PIB de Pernambuco.

CORISCO E PITACO

Uma das primeiras empresas de tecnologia da informação de Pernambuco e a pioneira na fabricação de equipamentos de informática do Estado foi a Elo Processamento de Dados (hoje Elógica). A empresa surgiu num momento de crise no setor, quando a reserva de mercado restringia a importação, em 1977. A partir desse momento, o empresário Belarmino Alcoforado enxergou muitas oportunidades e criou, inclusive, o primeiro computador genuinamente pernambucano, batizado de Corisco (1983).

“O contexto justifica o nome. Corisco, além de lembrar um cangaceiro famoso no Nordeste, tem outros significados como trovão, relâmpago, pedra fundamental do xangô, misticismo, poder, divindade”, explica. Todo o empreendimento idealizado por Belarmino envolveu cerca de 300 pessoas, 30 empresas e gerou muitos frutos. Há três décadas em funcionamento, a Elógica é considerada uma das mais consolidadas empresas do setor no Estado.

“A rede Banorte funcionou com Corisco, o Bandepe também, assim como outras empresas. Provamos que tínhamos a capacidade de empreender, isso debaixo da reserva de mercado. Tem muito sangue, alegria e história dentro disso tudo. Tínhamos uma equipe inteira que virava a noite e o dia”, conta. De acordo com Belarmino, entre os fatores que mais contribuíram para o sucesso dos empreendimentos está o pioneirismo. “Se tínhamos imaginação, idéias, não medíamos as conseqüências. Chegamos a fabricar cinco mil computadores” ressalta.

 

Antes da Elógica, outra idéia do empresário contribuiu para o setor estar em destaque: a assessoria Pitaco. “Fundei a empresa numa noite de Natal. Eu era diretor de uma organização e tinha sido transferido para a Bahia. Num jantar com a família, em clima de despedida, decidi que não iria mais viajar e sim montar a minha empresa. Pedi demissão, consegui um empréstimo e em 1º de janeiro de 1976 fundei a Pitaco”, lembra.

O empresário conta que o nome não era aceito no mercado e por isso passou a funcionar como uma sigla, que significava Programação, Implantação, Treinamento e Assessoria em Computadores. “Trabalhávamos com consultoria e isso nada mais é do que “dar pitaco”, porém muita gente não gostava do nome, então criei uma justificativa para ele, daí Pitaco virou uma sigla”, diverte-se.

Segundo Belarmino, com um ano de mercado a empresa era altamente lucrativa. Ele ficou no comando durante 25 anos. “Quando contratei o primeiro funcionário, dizia que tinha crescido 100%”, brinca, lembrando que, na fase inicial, a Fundaj teve uma participação importante porque emprestava computadores para o empresário trabalhar. “Fazíamos uma troca por programas. Hoje, todo mundo tem um PC dentro de casa. Só para se ter uma idéia, em 1992, o preço de um computador simples chegava a U$ 800 mil.” Em 2000, a Pitaco foi vendida para os norte-americanos. Belarmino lamentou a falência da empresa em menos de sete meses.